.Poema “Canção dos Três Barcos”
Poema de Cecília Meireles Análise, Interpretação
.Cecília Meireles foi uma poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira nascida no Rio de Janeiro no dia 7 de novembro de 1901 . Autora de uma infinidade de poemas, contos e até mesmo um auto, ela é considerada uma das vozes líricas mais importantes das literaturas brasileira e portuguesa.
Neste post nós fazemos uma pequena análise do poema “Canção dos Três Barcos”, um dos mais famosos de Cecília. Confira o poema::
Poema “Canção dos Três Barcos”
Canção dos Três Barcos
Meu avô me deu três barcos:
um de rosas e cravos,
um de céu estrelados,
um de náufragos, náufragos…ai, de náufragos!
Embarcara no primeiro,
dera em altos rochedos,
dera em mares de gelo,
e partira-se ao meio…ai, no meio!
No segundo me embarcara,
e nem sombra de praia,
e nem corpo e nem alma,
e nem vida e nem nada…ai, nem nada!
Embarcara no terceiro,
e que vela e que remo!
e que estrela e que vento!
e que porto sereno!ai, sereno!
Meu avô me deu três barcos:
um de sonhos quebrados,
um de sonhos amargos,
e o de náufragos, náufragos!ai, de náufragos!
MEIRELES, Cecília. Viagem & vaga música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.173-4.
Lendo os versos de Cecília Meireles é possível ter várias interpretações que são baseadas no nosso conhecimento e capacidade de assimilação. A primeira vista o poema nos remete a um ambiente marítimo, com barcos, praia, rochedos, vento, mar e náufragos. Uma criança poderia terminar sua análise neste ponto, considerando que o eu-lírico conta a história de uma aventura com barcos.
Os leitores mais habituados com a poesia, no entanto, devem dar uma atenção especial ao sentido metafórico das palavras empregadas no texto. Logo no início vemos que trata-se de uma neta que recebeu de seu avô barcos, que podem entendidos como três alternativas, três opções ou três caminhos.
.O primeiro é de rosas e cravos, símbolos do relacionamento entre jovens namorados. As rosas são dadas as moças no jogo da conquista e os cravos muitas vezes indicam as brigas e desentendimentos de um casal (lembre-se da canção popular “O Cravo Brigou com a Rosa”). Ela seguiu por esse caminho e não foi feliz.
Já a segunda alternativa era a do barco de céu estrelados, como sabemos que não trata-se de um barco podemos imaginar uma segunda opção ou um segundo caminho. Ela fora embarcada neste barco mas não encontrou a praia, não houve corpo e nem alma. Podemos comparar esse barco a um casamento, união mais madura do que a primeira, mas que no caso do eu poético não trouxe nem corpo (desejo) nem alma (sentimento).
Por fim a neta entrou no barco de náufragos, aquele que simboliza o desastre, o acidente de percurso. Contrariando as expectativas neste caminho ela encontrou serenidade, se sentiu em paz consigo. Podemos atribuir a esse terceiro caminho um divórcio ou ainda de um relacionamento extra conjugal.
Podemos julgar que na época em que vive o eu-lírico, as mulheres que não se casavam eram mal vistas (daí o conselho do avô) e as que se divorciavam ou traíam seus maridos tinham se acidentado, se perdido, naufragado. Mesmo assim o poema nos mostra que a neta embarcou por esse caminho e nele se viu serena, livre dos compromissos e dos “sonhos amargos” do segundo barco.
Tomando essa interpretação, podemos entender os sentimentos da mulher que ainda jovem foi aconselhada a iniciar um namoro que só lhe trouxe “sonhos quebrados”. No casamento não encontrou o amor e tampouco satisfação para o corpo. Indo contra o estereótipo de felicidade, embarcando no barco de náufragos, ela viu-se feliz e realizada.
.Mas e você, o que achou da análise do poema “Canção dos Três Barcos” ??? Qual é a sua interpretação dos versos de Cecília Meireles??? Deixe a sua sugestão.
Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901
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